Relatório revela divergência macroscópica entre IFI e PLOA
O Relatório de Acompanhamento Fiscal de setembro (RAF 116), divulgado em 17 de setembro de 2026, mostra que a Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta um déficit primário de R$ 86,1 bilhões para 2027. Para atingir a meta fiscal, a IFI estima que será necessário conter R$ 35,7 bilhões em despesas. Em contraste, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) prevê um superávit de R$ 18,6 bilhões no mesmo período, gerando uma diferença de R$ 104,8 bilhões.
Os diretores da IFI, Marcus Pestana e Alexandre Andrade, apontam que parte da disparidade decorre das projeções macroeconômicas adotadas pelo governo na elaboração do orçamento.
Diferenças nas projeções de receitas e despesas
O PLOA 2027 baseia-se em uma expansão do PIB de 2,5 %, enquanto a IFI projeta 1,8 % e o Boletim Focus estima 1,5 %. Essa variação tem impacto direto na arrecadação, pois um crescimento menor gera menos receita tributária.
A inflação também diverge: o governo considera IPCA de 3,6 %, a IFI 4,0 % e o Focus 4,3 %. Para a massa salarial, a projeção governamental de 10,1 % contrasta com a estimativa de 7,3 % da IFI, influenciando a receita previdenciária.
Quanto às despesas, as principais divergências envolvem pensionistas, BPC, abono salarial, seguro‑desemprego e sentenças judiciais. A IFI considera os números do PLOA relativamente otimistas, enquanto o governo sustenta a eficácia de sua estratégia de revisão de gastos.
Mesmo após excluir despesas legais, a IFI prevê um superávit inferior a R$ 1 bilhão, insuficiente para cumprir a meta fiscal, mesmo no limite inferior de tolerância de 0,25 ponto percentual do PIB. Assim, seria necessário contingenciar R$ 35,7 bilhões em 2027, além de uma nova despesa de R$ 33,8 bilhões vinculada ao aporte ao Fundo de Compensação aos Estados pela reforma tributária.
Em alguns itens de receita, a IFI apresenta estimativas mais favoráveis que as do governo, como na exploração de recursos naturais e nos dividendos das empresas estatais, em parte devido ao preço médio do barril de petróleo considerado.
Em transferências constitucionais, o RAF aponta que o repasse de estados e municípios deve cair de 4,7 % do PIB para 4,1 % do PIB em 2027, contrastando com a projeção de 4,4 % do PIB do PLDO de 2027.
Juros reais e risco fiscal
O relatório também analisa o nível dos juros reais, destacando que a situação fiscal desempenha papel central na determinação do prêmio de risco exigido pelos investidores de títulos públicos, especialmente de longo prazo. A IFI conclui que a permanência de juros elevados não se deve apenas à política monetária, mas também à volatilidade do risco fiscal.
Em síntese, a discrepância entre as projeções da IFI e do PLOA aponta para a necessidade de ajustes na política fiscal, seja por meio de revisão de gastos ou de revisão de estimativas macroeconômicas, a fim de garantir o cumprimento das metas de equilíbrio primário e evitar a ampliação de déficits futuros.




